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Agronegócio

Produção do “pré-sal caipira” cresce 30%

27/10/2021

Vinhaça e esterco impulsionam o biogás e expectativa é chegar a 11 bilhões de m3 em 2030

por Domingos Zaparolli - Valor Econômico

“Pré-sal caipira” é a expressão utilizada por especialistas em energia renovável para qualificar o potencial do aproveitamento de resíduos da agropecuária para a produção de biogás ou sua versão purificada, o biometano, que pode ser injetado nas redes de gasodutos junto ao gás natural e abastecer veículos, usinas térmicas e indústrias.

“Temos condições de substituir 70% do diesel utilizado no Brasil ou suprir 35% da demanda elétrica”, diz Alessandro Gardemann presidente da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás).

Um estudo realizado pela associação indica o potencial de uma produção diária de 120 milhões de metros cúbicos (m3) de biogás no país, o que equivale a 43,8 bilhões de m3 anuais. O setor sucroenergético representa quase 50% do potencial e o aproveitamento de resíduos da cadeia de proteína animal 32%.

A produção atual ainda está longe desse patamar. Em 2020, foi de 1,8 bilhão de m3 de biogás, sendo que 73% se destinaram a geração elétrica. A projeção da Abiogás é de uma expansão de 30% em 2021 e de uma produção de 11 bilhões de m3 em 2030.

O otimismo no setor é resultado de novas técnicas que aumentam a escala produtiva, investimentos em redes de gasodutos para a distribuição, e também da chegada ao mercado de veículos pesados movidos a gás natural e biometano.

A Geo Biogás & Tech, empresa de Gardemann, desenvolveu uma técnica que aproveita a vinhaça, um composto químico altamente poluente gerado na transformação da cana-de-açúcar em etanol, e outros dois resíduos, a torta de filtro e a palha, para alimentar biodigestores. A combinação de resíduos proporciona a produção de biogás o ano inteiro e não apenas no período da safra da cana, como ocorre quando o biodigestor é alimentado apenas com a vinhaça.

Em 2020, entrou em operação a UTE Biogás Bonfim, em Guariba (SP), com capacidade instalada de 21 megawatts (MW), resultado de uma joint venture da Geo Biogás & Tech com a Raízen. Em setembro, a companhia fechou contrato com a produtora de fertilizantes Yara Brasil para fornecer 30 mil m3 diários de biogás para produção de amônia verde. A Raízen já anunciou o projeto de construir mais 39 unidades de biogás para o aproveitamento dos resíduos de suas usinas.

Em julho, o Grupo Cocal iniciou a produção de biogás em sua usina de etanol em Narandiba (SP) utilizando a tecnologia da Geo Biogás. A unidade, que demandou investimentos de R$ 139 milhões, tem capacidade para produzir anualmente 33,5 milhões de m3 de biogás, com os quais irá gerar 33,3 mil MWh de energia. A purificação de biogás vai gerar ainda 8,9 milhões m3 de biometano, que serão injetados na rede de gasoduto da GasBrasiliano.

A Geo Biogás & Tech agora está empenhada em ampliar o leque de aproveitamento de resíduos agropecuários. “Estamos com um acordo praticamente fechado para o desenvolvimento de uma usina de biogás que aproveita resíduos de bovinos confinados”, diz Gardemann.

Em 2022 entra em produção a primeira etapa do projeto do grupo Tereos para o aproveitamento da vinhaça da sua Usina Cruz Alta, em Olímpia (SP), para a geração de bioeletricidade e biometano. O projeto é resultado de uma parceria com a Zeg Biogás e Energia. Na primeira fase será gerado 1 MW de bioeletricidade em uma lagoa biodigestora. Estão previstos outros 10 biodigestores para os próximos anos que serão direcionados a produção de biometano.

“Já temos mais outros quatro contratos com grupos usineiros em São Paulo e Minas que devem ser implementados em 2022”, diz Daniel Rossi, CEO da Zeg, que também estuda projetos junto a produtores de laranja, óleo de palma e gestores de aterros sanitários. No total, a companhia prevê investimentos de R$ 270 milhões no próximo ano, que irão gerar 170 mil m3 por dia de biometano, sendo 110 mil m3 /dia proveniente de usinas sucroalcooleiras.

No Paraná, a EnerDinBo fechou em outubro acordos com suinocultores para a construção de quatro usinas de biogás que deverão ser instaladas em 2022 no oeste do Estado. A capacidade das usinas ainda não está definida, mas cada uma deverá ter capacidade de gerar entre 2 MWh a 5 MWh, além de adubo orgânico e biometano para abastecer a frota da companhia e dos suinocultores parceiros.

Em 2020 a EnerDinBo inaugurou sua primeira unidade em Ouro Verde do Oeste (PR), uma usina hibrida fotovoltaica e de biogás com capacidade para gerar 2,5 MWh. O biogás é obtido com dejetos suínos provenientes de 40 pequenos e médios suinocultores da região. “É um projeto que gera energia e limpa o ambiente das granjas, proporcionando bem estar”, afirma Valdinei Silva, sócio-diretor da companhia.